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6.10.03

Concertos na região de Lisboa (2) 


MarinUm vago caminho, uma agonia incólme, uma ânsia de partilha, uma necessidade premente. De comunicar. Uma longa viagem para além do tempo, para além do bem e do mal. Uma música sem tempo, sem data, um ecoar de musas distantes, uma alma perdida entre dois tempos, uma família algures, gente feliz. Uma calma metáfora de anos esquecidos, algures em Paris. Viverá ainda hoje esta família, num tempo de Sol e de cheiros fortes: Marin Marais? Creio que sim que vive. Não sei se será verdade, se as almas têm destes paradoxos, se os universos se suspendem. Mas creio que sim, vive, tal como vive François Couperin, como La Lande. Mesmo que as suas obras tenham desaparecido, mesmo que o frenético e irascível Forqueray lhes tenha roubado as audiências e a fama, com o fulgor tempestuoso do seu pacto diabólico, o mesmo Forqueray que convidou Telemann para ir a Paris, tarde, demasiado tarde, 1737, Marais e Coupérin mortos, Bach ainda vivo, Händel em Londres. Mas todos, afinal, vivos, tão vivos como os ouvi no sábado, num dos sábados mais inesquecíveis que o Palácio de Mafra viveu desde a sua fundação, desde os tempos em que Scarlatti viveu. Sábado na biblioteca do convento de Mafra, Marais, Couperin, Blavet, Forqueray e Telemann: compositores que dos céus ou infernos onde residem, ou de Paris onde tocaram, tão vivos como nessas tardes de 1737. Pierlot na viola da gama baixo, Weiss no cravo, Hantaï na flauta, Fernandez no violino, recriaram Forqueray, Telemann, Blavet e Guignon, o quarteto de músicos que em Paris se juntou... Não há palavras para falar dos deuses que permitem aos homens sentir que a imortalidade é possível...
Não sei se o tempo parou algures, entre os mundos perdidos, se eu fui suspenso nalgum mecanismo estranho no espaço/tempo destes universos, apenas sei que ouvi e vi Marin Marais, falou-me...

Flora
CM


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