<$BlogRSDUrl$>

11.10.03

Concerto do ciclo cinco pianistas portugueses- cinco concertos de Beethoven 

Teatro de S. Luiz, sexta feira, 10 de Outubro, 21h.
Beethoven, criaturas de Prometeu e concerto nº1 para piano e orquestra; Meyerbeer, cantata para clarinete, soprano, coro masculino e orquestra, o mesmo Meyerbeer que Wagner detestava com alguma razão musical; e Mozart, abertura e bailados de Idomeneo.
Em primeiro lugar o desabafo: o coro do S. Carlos não existe. É lancinante, ver 23 homens que deveriam saber cantar entregues ao mais penoso exercício do fingimento e da incapacidade. Feio, más vozes, gritado, desafinado, fora de tempo, desacertado, desgarrado. Nada se aproveita, é de estarrecer o insulto a que este "agrupamento" sujeita os ouvidos e os cérebros mais sensíveis. Eu só pedia para aquilo acabar depressa, um filme de terror. Uma miséria tão grande que torna impossível comentar as partes em que o "coro" interveio, não há palavras para a classificação da berraria infame, é demasiado triste. Existe "maestro" de coro? Será que esta anedota trágica vai continuar? Paga com o dinheiro dos contribuintes... Eu já previa o descalabro quando comparei as intervenções do coro do S. Carlos ao mau cheiro num urinol depois de uns bons copos. Mas a esperança é sempre a última a morrer, estava com vontade de ouvir o coro masculino, talvez tivessem trabalhado mais, talvez tivessem brio, talvez o "maestro" de coro tivesse apanhado uma constipação e entregue a batuta a outro mais capaz... mas... sou muito ingénuo.

O concerto de resto não foi péssimo, a orquestra anda desgarrada, sem muita chama, os naipes de violinos andam mal orientados, a desafinação deste naipe é crónica, para lá do lá (880) a situação torna-se terrível, os violinos (e a orquestra) estão sem muita vivacidade, os ataques não são certos (muito evidente nos pizzicatos), pede-se uma análise da situação dos concertinos e de mais trabalho, como o realizado antes da sinfonia nº9 de Mahler. Os restantes naipes estão em melhores condições, gostei das intervenções das violas, com boa sonoridade e untuosidade. O naipe dos violoncelos está muito certo. Os contrabaixos continuam ao seu melhor nível. Os sopros estão também razoáveis, as intervenções a solo correram sempre bem. Pena que o coração da orquestra esteja tão mal orientado, é urgente rever o problema do naipe dos violinos. A coordenação geral e a sonoridade da orquestra têm de ser trabalhadas, mas o problema não é dos músicos, a culpa vai por inteiro para uma direcção musical ausente e laxista e para maestros de trazer por casa, ou melhor, de trazer ao S. Carlos, e que são ilustres anódinos anónimos.

António Rosado excelente, já aqui falei da qualidade deste pianista, que nos brindou com Brahms, intermezzo, um momento alto do programa, pelo pianismo, musicalidade e atmosfera sonora tão própria do mestre de Hamburgo. O concerto de Beethoven opus 15 foi tocado com uma vitalidade e energia que chegou a contagiar a anémica orquestra sinfónica portuguesa. Boa sonoridade, mas sobretudo um sentido ritmico e uma vibração que fazem de Rosado não apenas um pianista mas um músico.

Teresa Cardoso Meneses não surpreendeu, entrou com a voz fria, algo descompassada, o seu timbre não é muito belo, talvez estivesse com algum problema de garganta. Digamos que leu, com alguma competência, o papel da cantata de Meyerbeer Gli amori de Teolinda. A coordenação com o clarinete obligato de Francisco Ribeiro nem sempre foi conseguida. Emite com correcção, afina razoavelmente, a potência não é muito grande, mas é correcta. Digamos que foi agradável no papel, mas poderia ter sido melhor.

A sonoridade aveludada e o ataque de Francisco Ribeiro, no clarinete, foram notáveis. Capaz de pianíssimos de uma suavidade extrema, Ribeiro mostou um som no clarinete bom nos três registos do instrumento. Os agudos, sobetudo, sairam impecáveis. A obra de Meerbeer é simples do ponto de vista interpretativo, mas muito vistosa do ponto de vista técnico, saltos de registo, escalas, agudos, pianíssimos, ritmo, coordenação com o soprano, Ribeiro deu o tom e comandou, mais que o maestro, a relação com o soprano. Estou muito curioso para ouvir Ribeiro numa obra como o quinteto de Brahms, ou um dos concertos de Weber. Tem carisma, tem personalidade. Uma grande surpresa, pelo menos para mim.

Uma surpresa desagradável: o maestro.
Mostrou ser completamente banal e complacente. O Mozart, abertura de Idomeneo e músicas de bailado, foi tratado sem alegria, de forma triste, amalgamada, empastelada. É mais um daqueles que passa sem deixar recordações, não merece o nome citado nesta crítica, felizmente que Rosado comandou a orquestra do piano, com a sua energia e vitalidade arrastou os músicos, coisa que o maestro mostrou ser totalmente incapaz de fazer.
Se esquecermos o coro e nos lembrarmos de António Rosado e de Francisco Ribeiro, pode-se dizer que o concerto valeu a ida ao S. Luiz.

CM


Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?