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27.10.03


Cito um artigo do Seabra no Público, neste momento não é altura de discordar de pequenos detalhes, tem toda a razão e escreve bem, concordo inteiramente e reproduzo com a vénia respectiva, é nestes assuntos que a coragem e inteligência de A. M. Seabra faz falta. Como de costume a razão que me leva a reproduzir por inteiro o texto é que o Público retira estas crónicas ao fim de um certo tempo, uma semana, e deixa de estar acessível on-line. Aqui fica o registo.
CM


Ao Princípio Era o "Em Órbita"
Por AUGUSTO M.SEABRA
Domingo, 26 de Outubro de 2003

O último concerto ainda está para vir, no Porto, a 29 de Novembro, mas para muitos fiéis companheiros de jornada, ao longo de sete anos, terminou ontem à noite, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, uma bela aventura, os Concertos Em Órbita/Portugal Telecom. Espero que tenham terminado em beleza; mas terminaram ignominiosamente, por obra e desgraça da dita Portugal Telecom, "condignamente" representada na figura de salamaleques, flatulências e transbordo de vaidades do seu presidente da Comissão Executiva, Miguel Horta e Costa.

A identificação do "Em Órbita" à música barroca, que é como quem diz - porque esta também foi uma aventura solitária - dessa singular figura do "arquitecto cada vez mais quase exclusivamente melómano" Jorge Gil, essa identificação está de tal modo instituída que dir-se-ia já um dado da eternidade. Mas este é também o momento de um dever de memória.

Alguns ainda terão presente que a pré-história começou em territórios bens diferentes quando a equipa inicial do "Em Órbita" trouxe à rádio portuguesa padrões de apreciação do universo "pop" contrastante com as ordens vigentes. E por mim já bem lembro de quando o indicativo do programa passou a ser o "Assim Falou Zaratrusta" de Richard Strauss, como que "vindo" do "2001" de Kubrick. O salto, deu-o já solitariamente Jorge Gil em 1974, no momento em que nos começavam a chegar por via discográfica os ecos de uma "nova música antiga" - com os discos que nos chegavam, e também o papel infatigável de animador que foi, cá, o de Joaquim Simões da Hora.

Em 1985, ano do tricentenário dos nascimentos de Bach e Haendel, a dedicação tomou corpo vivo: no primeiro concerto organizado pelo "Em Órbita" vieram Ton Koopman e a Orquestra Barroca de Amsterdão - e o Jorge a pedir-me para escrever as notas ao programa e o Simões da Hora de permeio a telefonar-me "então essas notas?, despacha-te!".

Evidentemente, nesses 11 anos algumas coisas tinham tomado força de evidências; se me apanho nesta história é porque já então também na imprensa se manifestava uma sensibilidade crítica marcada pelos novos critérios interpretativos do barroco e da genericamente chamada "música antiga", para a qual também já despertara a Gulbenkian, iniciando as respectivas jornadas. Mas ao princípio era o "Em Órbita".

Hoje, tudo será evidente, demasiado mesmo, a ponto de o gosto do barroco se ter tornado numa moda persistente, mesmo num novo cânone do gosto musical cujos efeitos perversos também não tenho deixado de apontar. Contudo, essa institucionalização de um gosto não implica uma demissão da esfera autonómica que remetesse a programação do dito repertório barroco (de facto, hoje já alargado a períodos subsequentes) àquelas que são propriamente as instituições programadoras e só essas.

O que sucedeu no caso dos Concertos Portugal Telecom é que a apetência possibilitou um sucesso público que tem que ser atendido para melhor empreender o alcance do desaforo. Longe de mim sustentar que os projectos culturais se devam prioritariamente orientar para a visibilidade imediata; mas há qualquer coisa de extraordinariamente aberrante no facto de, sabendo-se que capital de "risco cultural" é algo com que não contamos propriamente, uma empresa se desvincular do projecto de mecenato que vinha trazendo maior visibilidade imediata - porque claramente não existe um outro caso de tão notória associação pública ao seu mecenas como o dos Concertos Portugal Telecom.

Alguma razão económica? Li atentamente o Relatório e Contas do primeiro semestre de 2003 da PT: "Os resultados obtidos permitem-nos encarar com optimismo o exercício", escreveu Miguel Horta e Costa aos 28 de Agosto de 2003; não é por aí - sejamos claros, 334.000 euros de investimento no programa cancelado para 2004 é uma verba quase irrelevante para a PT. Reorientação estratégica? Quando a má nova veio no PÙBLICO (8/2/03), o tal senhor dos salamaleques afirmou que "a PT tem um sentido muito profundo da responsabilidade cultural" e por isso passavam a apoiar em exclusivo o Teatro Nacional Dona Maria e o Centro para as Artes de Belgais. O mínimo que se pode dizer é que é publicamente desconhecida a "responsabilidade cultural" de apoiar uma tão notória inexistência como o Dona Maria, que assim o quer outro homem de salamaleques, o secretário de Estado Amaral Lopes.

Nesta lamentável decisão não faltarão também politiques rasteiras, com Horta e Costa, homem do poder PSD, a querer apagar uma iniciativa do antecessor Murteira Nabo, homem do poder PS, e a cultura que se lixe. Mas há dois dados que não podem deixar de ser evidenciados: 1) a possibilidade de a iniciativa vir a prosseguir com outro apoio coloca-se desde já com desafio público ao mecenato, à capacidade de iniciativa cultural e mediática do capitalismo português; 2) o que afinal neste caso até se compreende muito bem, e a esse respeito mesmo o Dona Maria pode ser sintoma exemplar, é que o Estado se faz valer da empresa em que é notoriamente influente para colmatar os seus próprios défices de orçamentação ou apoio - um ponto mais, afinal, a acrescentar ao inqualificável escândalo que já de si é o abuso de posição dominante da PT, no seu sector base, na distribuição cinematográfica ou na comunicação social, algo que em qualquer democracia capitalista com as devidas regras não seria de todo possível.

PS - Pois é - nem de propósito, um assessor ministerial salta quase directamente para director de um jornal da PT! Alguém aí disse que a empresa de Horta e Costa não é favores ao governo?


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