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18.9.03

Viagem de Inverno de Shubert 



Franz Schubert

De Viena trago um disco, já antigo de 1999. Um Hans Zender, compositor e maestro, que recria de forma absolutamente chocante, e quero mesmo dizer chocante, a Viagem de Inverno de Schubert. Uns dirão que a obra é um bárbaro assassinato, outros dirão que é uma obra simplesmente genial. Fiquei chocado, era o que pretendia Zender, como aliás o afirma num artigo que escreve sobre o assunto.

Zender faz uma orquestração da viagem de Inverno, mas também recria a obra, introduzindo, transições, pontes, sublinhados, partes em que coloca os passos do caminhante, o vento, o quebrar do gelo com os passos, e sonoridades e timbres instrumentais desconcertantes, harmonizações diferentes do original. Um trabalho admirável por um lado, por outro totalmente desconcertante. Música de câmara com reverberações mahlerianas, numa linguagem estética que também herda elementos da segunda escola de Viena.

O mais importante, a viagem surge, revela-se. A poesia de Muller continua gélida e transcendente, revelada em todo o esplendor pela música de Schubert. A viagem afirma-se, alonga-se, é trágica e, sobretudo, belamente triste. Esta infinita tristeza não é destruída nesta visão chocante de Zender. Talvez o compositor alemão Zender pretenda uma recriação do espanto original dos ouvintes que a escutaram pela primeira vez, ele próprio o afirma, creio que o consegue. Talvez recrie também o estado de cansaço febril e atormentado de Schubert quando compôs a obra, de tal forma a música envolve num mundo de sonho e de abandono solitário que só pode terminar em morte ou no beco sem saída de um eterno retorno sem amor, numa viagem interminavel, em que voltamos ao ponto de partida, mais velhos, mais ricos, mais sábios, mas mais sós, mais tristes... Fein Leibchen, Gute Nacht!

Precisarão os nossos ouvidos, hoje, de algo mais afirmativo que dois homens vestidos de negro, um grande piano de cauda e a música e poesia de Schubert e Muller? Creio que ao mais apaixonado dos melómanos bastaria a linguagem simples do texto original. Será que os ouvintes comuns de hoje precisam de mais sonoridades, de mais "barroquismos"? A vida é mais agitada, o som mais vulgarizado, as aparelhagens massacram-nos os ouvidos de intensidades e de ruído. Precisará o homem de hoje de mais estímulos sonoros ao nível do timbre e da força sonora para se espantar, para discernir acima do seu ruído de fundo diário, para se chocar com a obra de arte, para se deslumbrar com a novidade da descoberta?

Ouvir

O tenor Christoph Prégardien ajuda de forma admirável Zender a recriar a obra. Trata-se de um intérprete que domina de forma soberba a obra, tantas as vezes a cantou, e gravou, apenas com o acompanhamento de um grande piano de cauda. O agrupamento orquestral é o Klangforum de Viena, agrupamento de 24 músicos, muitíssimo bom tecnicamente e que tem com uma filosofia muito semelhante à nossa Orquestrutópica.

Um disco Kairos: Schuberts "Winterrreise" o título do mesmo. Não recomendo, não sei se gosto, terei de pensar e meditar mais no assunto, mas ainda não parei de ouvir o disco...

Só me falta dizer que gostava de morrer ao som da Viagem de Inverno.

CM


P.S. Preparo também uma análise das Lições das Trevas de François Coupérin, com diversas interpretações.
Uma obra genial, interpretações entre o excelente e o muito interessante. Desde Gerard Lesne, até Michel Chapuis, passando por Chistophe Rousset acabando em Olivier Vernet, uma obra encantatória, deslumbrante, em não menos deslumbrantes revelações. Preparo excertos comparados para se poderem ouvir aqui.


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