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22.9.03

A minha escolha 

Saiu recentemente um disco da editora Alpha, com o agrupamento Le Poème Harmonique, Vincent Dumestre na direcção.

O nome do disco: Nova Metamorfosi, evoca as alterações que o cardeal Borromeo (arcebispo de Milão) em 1565 impõe aos músicos de acordo com as regras da contra reforma.

Tal como tinha imposto aos artistas normas rigorosas de pietismo, tal como tinha mandado retirar as insígnias jactantes dos benfeitores dos templos, tal como mandou retirar os cadáveres e ossos dos defuntos de dentro das igrejas - túmulos sim, corpos fora - higiene acima de tudo pois o cheiro dentro das igrejas era horrendo com os fétidos eflúvios que emanavam dos túmulos mal encerrados. Tal como retira do seu palácio os luxos desnecessários, tal como ordena aos padres e frades que abandonem a sua vida dissoluta, em que cortesãs, rapazinhos e jogadores eram companhia frequente do clero, quer em festas quer em orgias, Borromeo ordena aos compositores que escrevam música mais séria, ordena que o texto se deve entender, que a mensagem deve ser clara, que se acabem com temas populares.

O fabordão surge então em pleno, um cantos firmus na voz de tenor (de homem claro), e uma polifonia vocal a tempo. Simplicidade da harmonia, tempos lentos facilitam a inteligibilidade do texto. A gravidade deve imperar, contrariamente ao estilo madrigalista. Imagine-se a desgraça de Vincenzio Ruffo, emérito compositor de madrigais e mestre de capela em Milão. Ruffo recebe uma carta em 1565 do cardeal, que o obriga a compor no estilo ditado pelo Concílio de Trento.

Ruffo deixa a música profana e dedica-se a experiências de forma a conseguir música de qualidade, sem deixar de obedecer às ordens de Borromeo. Mas é difícil, a vida musical italiana é fervilhante, a ornamentação e o acompanhamento por instrumentos nunca deixam de se praticar.

Os retardos harmónicos, as antecipações de acordes, tensões que deixavam os ouvidos irrequietos, mas que também faziam sentir com fervor a música e o espírito do ofício foram cada vez mais praticados. O clímax é atingido pelas sublimes Vésperas de Monteverdi de 1610, duplo coro, instrumentos, tudo irrompe de forma imparável, a partir das formas austeras pós concílio. O fabordão metamorfoseia-se complexifica-se, uma tremenda polifonia vai enriquecer a singela homofonia inicial. No final da metamorfose (1620) só resta a polifonia, o cantus firmus desaparece misteriosamente.

Ao cardeal velho sucede o jesuíta Federico Borromeo (creio que em 1595), primo do primeiro. Como bom jesuíta pede a Coppini que mude os textos dos madrigais (4º e 5º livros) de Monteverdi e os tranforme em música sacra. O popular ao serviço de Deus, filosofia bem aplicada pelos jesuítas.
Os madrigais de Monteverdi, constituíam música extremamente popular ao tempo, Coppini, professor de retórica, música e latinista consegue fazer a adaptação com competência.
É música de Fabordão tradicional, Monteverdi lido por Coppini e Ruffo que Vincent Dumestre escolhe para ilustrar a lindíssima metamorfose que se sucede ao concílio de Trento. Nem as regras mais estritas são capazes de calar a arte, já Palestrina, em Roma, o tinha demonstrado com a Missae Papae Marcellus.



Vincent Dumestre consegue de forma encantatória dar a entender a metamorfose neste disco, irrepreensível, desde o seu artigo, do qual retirei informações, quer através da forma como conduz 8 cantores e 9 instrumentistas, num trajecto de deslumbramento. O melhor disco deste agrupamento, de longe, recente, gravação de Janeiro de 2003, publicação agora mesmo. Choc, recommandé par Classica e R10. Outros prémios se seguirão. Uma palavra para Dumestre: inteligência.

Sensibilidade e técnica, acompanhas por uma profunda inteligência fazem desta interpretação um paradigma. Mas não é fácil, é para ser ouvido com calma, sentindo o som, a pulsação do belo, do intangível...


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CM


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