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21.9.03

Maria João Pires e Belgais 


Pergunta CVM se o estado deve ou não financiar o projecto de Belgais.

Maria João Pires em Belgais

Belgais não é um tacho
Foto Expresso

Devo dizer que essa questão, para mim, é muito simples de responder. Maria João Pires tem defeitos, muitos mesmo, o pior dos quais é não estudar muito, tendo tido situações em concerto que chegam a ser confrangedoras, como no caso em que se esqueceu completamente da música num concerto menos tocado (para dois pianos) de Mozart. O seu reportório é reduzido, também por esse motivo.
Creio que no estrangeiro não acontece tanto esse desrespeito por si própria e pelo público, o que ainda é mais desagradável para quem paga os impostos que vão para Belgais.
Mas seria completamente imbecil, superficial, julgar Maria João Pires por alguns concertos mal sucedidos, ou por uma crónica falta de estudo. Maria João Pires é uma predestinada, mesmo com pouco estudo a sua musicalidade, a sua capacidade de expressão e o sua facilidade de execução ao piano tornam as suas aparições sempre memoráveis, mesmo quando troca algumas notas, ou se nota algum estudo deficiente... É mesmo assim a melhor pianista que Portugal tem, embora um António Rosado, seja no meu entender um génio mágico do piano, a crescer.

Mas será que a faceta de intérprete genial, de grande nome da cultura portuguesa dão a Maria João Pires algum crédito na pedagogia? Na construção de um projecto em que capitais públicos devam ser investidos?

A questão aqui será muito mais complexa, Maria João Pires não é uma intelectual (pelo menos assumidamente), é uma intuitiva. Nunca veremos MJP a reflectir sobre música como o faz Alfred Brendel. Nunca escreveu nada, nunca fez teoria ou teve alunos de forma regular. Nunca fez musicologia ou estudou o assunto.

Então porquê Belgais? Restaurar a quinta da família de forma expedita com o dinheiro dos contribuintes? A má língua deixou sempre esta pergunta no ar.

A resposta está num facto muito simples, MJP é de facto notável, apresentou um projecto, o projecto tinha valor intrínseco, acreditou-se na artista. Era tempo de ter alunos, de reflectir, de passar a uma fase mais madura. Seria trágico se o estado não aproveitasse a oportunidade de uma senhora como MJP deixar uma escola, um marco. Seria criminoso, seria uma crime terrível contra o património colectivo de todos nós. Poucos que sejam os que bebem as aguardentes nas tertúlias de Belgais, o dinheiro é bem gasto. Como julgar o projecto? Pelos frutos, e os frutos estão aí, estão a aparecer. As crianças e a educação musical, os estagiários que passam por Belgais, a reflexão que está a surgir agora, aos poucos.

Basta o convívio com uma pessoa magnética, intuitiva sim, mas catalizadora, mas profunda, para gerar energia e cultura. Porque não se toca como MJP toca só porque se "tem jeitinho".

Não sei se expliquei bem o que sinto, mas creio que a ideia ficou clara.

CM


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