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22.9.03

Com a vénia a Augusto Seabra, finalmente 


Finalmente um artigo de A. M. Seabra, ao qual tiro a vénio, se esquecermos a trica de estimação contra Vieira Nery, o artigo merece ampla divulgação, reproduzo-o aqui, porque o Público retira os artigos ao fim de um certo tempo e esta peça merece ser recordada. A. M. Seabra, independemente de tudo, é um nome que faz opinião, que tem de se ter em conta. Obrigado a Portugal dos pequeninos pela referência.

Manuela, "The Opera Killer"
Por AUGUSTO M. SEABRA
Domingo, 21 de Setembro de 2003

Em 1803, tinha o Real Theatro de S. Carlos aberto há apenas 10 anos mas sendo já crónicos os problemas de rentabilidade, o governo do Reino, que também já não dispensava o teatro mas não queria assumir os seus encargos, atribuiu a exploração ao empresário Lodi, concedendo-lhe em contrapartida o privilégio das casas da sorte.

As lotarias, os bilhares ou a banca nas salas de teatro, o monopólio da importação da aguardente de França ou de azeite espanhol, etc., foram durante quase meio século moeda de troca do teatro. Se a drª. Manuela Ferreira Leite se lembra, não só abate das décimas do orçamento da Cultura as poucas mais que centésimas que cabem ao São Carlos como começa a fazer a previsão das receitas de IVA resultantes das transacções concessionadas e do seu contributo para que o défice orçamental se fique mesmo pelos 2,944% e não chegue aos 3%!

Talvez apropriadamente para a época de saldos ainda em curso, mas ultrapassando todas as expectativas, os encarregados da liquidação das responsabilidades políticas do Estado na área da cultura, a múmia paralítica que faz de conta que é ministro mais o secretário de estado que manda e vela para que nada se faça, deslocaram-se ambos a uma conferência de imprensa para anunciar que não se anunciava a temporada 2003/04 do Teatro Nacional de São Carlos!

Novidade mesmo? No despautério, certamente. No nível de desertificação, ainda assim também. Mas a rota do naufrágio estava traçada há meses. Não tenho o mais mínimo dos gozos em retomar o que escrevi aqui em 27/4: "uma adjunta financeira do ministro Roseta dizia que foram desbloqueadas verbas e que a situação 'está garantida'. Não está nada. A questão é de fundo, a crónica sub-orçamentação de um Teatro Nacional que não pode viver permanentemente na esperança de que um ministro da Cultura sem peso político solicite ao primeiro-ministro que este interceda junto da ministra da Finanças para desbloqueamentos pontuais. E acrescente-se: o modelo institucional do São Carlos, decorrente da obstinação de Manuel Maria Carrilho em acabar com a anterior Fundação, esse modelo está exangue: não tem flexibilidade, faz depender o teatro das regras da contabilidade pública, dá azo à crónica dependência financeira. O director do teatro, Paolo Pinamonti, já várias vezes alertou, tanto que inclusive o secretário de Estado Amaral Lopes já disse [há 15 meses!] que o governo está aberto à reconsideração - mas, claro, nada até agora. Aliás, como é possível confiar em Amaral Lopes?". Pois...

Donde, se conclui agora sem margem para dúvidas que o Teatro Nacional de São Carlos não tinha condições orçamentais para assegurar a conclusão da temporada 2002/03 e o início da 2003/04. O que, se figurasse este dado nas estatísticas do Eurostart, era mais outro em que Portugal estaria bem destacadamente na cauda da Europa. Oh orgulho!

Dir-se-á agora, dizem: há obras a fazer, inadiáveis. Se o diz a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, pois será assim mesmo. Mas a sensação de "dejá vu" é patética. Há cinco anos, Manuel Maria Carrilho meteu mãos à obra. Do seu entretanto desavindo secretário de Estado Rui Vieira Nery manteve uma tristíssima ideia: acabou com a Fundação responsável pelo teatro (pessoa juridicamente privada) e reconstituísse-o como ente público (seria o São Carlos "restaurado na sua dignidade plena de Teatro Nacional", como constava da propaganda desses anos). Mandaram-se fazer obras, "inadiáveis", como não duvidamos. E remeteu-se o regime das temporadas, em absoluta originalidade europeia e internacional, para o início do ano civil. Cinco anos volvidos, vira o disco e toca o mesmo...

O teatro nacional de ópera é uma questão cultural (óbvio) mas também institucional, política, orçamental, sociológica e (oh quanto!) simbólica. A absoluta paralisia deste governo em considerar o São Carlos condensa-se na incapacidade em ponderar um novo estatuto, provada que está a ineficácia do resultante do Decreto-Lei 88/98. Em boa verdade, e embora a questão seja bem mais grave no São Carlos porque se insere directamente num circuito internacional planeado a anos, a questão vale para todos os teatros nacionais. Mas eis o que esta semana mesmo disse Roseta: " (a questão) não se resolve de um dia para o outro, até porque o ministério não tem poder legislativo para decretar a autonomia financeira dos seus organismos" (PÚBLICO de quarta-feira). De um dia para o outro? Mas não está este governo aos 500 dias? O ministério não tem poder? Por si só, não, mas se não é o suposto titular da Cultura a colocar a questão na agenda quem o fará? De facto, grande verdade disse: "o ministério não tem poder", e esse é o nexo político e também orçamental da questão.

Há algo de injusto em que a dr.ª Ferreira Leite possa ficar retida nas nossas memórias também como "the opera killer". Além de todos os conhecidos argumentos orçamentais, como se poderia esperar que uma tal figura da castração fosse sensível às economias libidinais da ópera? E em boa verdade, nem se pode desquitar a hipótese de, movido pelos mais altruístas interesses de justiça social, e sensível ao apostolado do grande doutrinador Pacheco Pereira de desactivação da "máquina de propaganda" do ministério da Cultura, o governo de Durão Barroso delineia um novo objectivo: "os ricos que paguem a ópera"!

Ao jeito que as coisas estão, perante a falta de renovação de públicos, um enquistamento sociológico que traduz também uma iniludível depreciação do capital simbólico da ópera, já nem digo nada.



Fim do artigo de AMSeabra no Público de Domingo.
CM


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