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25.7.03

A verdade 


Encontro perdido na meio de uma partitura de Bach, a da paixão BWV 245, estreada na Sexta Feira Santa de 1723, um recitativo, o número 28, logo depois do coral "Ach, grosser König..." Ah Poderoso Rei... pouco depois da atormentada afirmação de Jesus: "Mein Reich ist nich von dieser Welt...", O Meu Reino não é deste Mundo. Um momento sublime do Evangelho de S. João, diz assim o texto, que traduzo do alemão, (porque não sei da Bíblia perdida algures a três metros do chão numa estante):

Disse Pilatos para Ele:
- És então um Rei?
Jesus repondeu:
Tu o dizes, Eu sou um Rei. Nasci e vim ao Mundo para dar testemunho da Verdade. Aquele que estiver com a Verdade, ouvirá a minha Voz.
Falou Pilatos para Ele:
- O que é a Verdade?
E ao dizer isto então saiu e dirigiu-se aos Judeus dizendo para eles:
Não encontro culpas Nele, temos um costume de libertar um preso pela altura da Páscoa, querem que liberte o Rei dos judeus? Então gritaram todos de novo dizendo:
-Não o libertes, liberta Barrabás!


Flagelação de Cristo de Caravaggio

Diz o evangelista nos seis compassos, em meu entender, mais atormentados de toda a Paixão :
Barrabás era um bandido!

Num grito agudo do tenor começado num terrível lá agudo sem preparação.

Então Pilatos tomou Jesus e mandou-O flagelar.
Num ritmo complexo e sincopado, de notas rápidas, com um ritmo bem marcado pelas síncopas do contínuo, orgão e cordas graves.
Em que a palavra "geisselte" surge numa angústia terrífica em sons descendentes muito rápidos em grupos de três notas, num melisma infindo do tenor, mas, ao mesmo tempo, tremendamente breve, marcante como o chicote da flagelação. Um misto de golpes do algoz e da angústia do sofrimento. Tudo é visível e audível nos acordes sofridíssimos do orgão, recuso a palavra dissonante, nada é dissonante em Bach. Uma raiva imensa de Bach traduzindo com dramatismo um Evangelho todo ele Paixão. Revelando a juventude em revolta do compositor, preparando caminho à reflexão introspectiva da Paixão Segundo S. Mateus de 1727.
A tempestade antes da calma.
Esta frase de Bach leva-nos a este ponto do pensamento da calma e da paz com a vida breve mas bela que este mundo nos dá. É a preparação para a verdade que todos temos dentro de nós, mas à qual nenhuma resposta é possível, como na pergunta de Pilatos.

Este momento é um dos pontos chave da nossa civilização. "O que é a verdade?"...
Ouvir
Por Nikolaus Harnoncourt (1993)

CM

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