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6.7.03

O prometido Rembrandt 

Rembrandt pinta sem constrangimentos. Impõe-se à matéria, ao suporte e aos seus limites, como impõe a ignorância à juventude e o conhecimento à velhice. Alterna transparências com empastes, luz com sombra, dilui e arranha a matéria com o cabo do pincel. A tela, com Rembrandt, é superfície para todos os ensaios e experiências, tal como Saskia, a sua amada, a musa para a sensualidade de Danae ou para o mistério das Bodas de Sansão. Pintura de contrastes e de tensões, entre o bem e o mal, entre a vida e a morte, integra na mais depurada monocromia a visão festiva de um colorista. Creio que Rembrandt descobriu que o traço do pincel pode ser mais eloquente do que as coisas representadas, e que a expressão dramática atinge maior intensidade na cor do que nas personagens.
Dalila, já em fuga, lança um último olhar a Sansão. Este olhar não se destina apenas a conduzir o espectador ao momento crucial do drama - o momento em que o filisteu enterra o punhal num dos olhos do herói. Destina-se também a convocar um outro momento da narrativa não menos cruel - o amor da traidora que só nesse momento se enuncia. Talvez por isso, a tensão do herói, a violência dos guerreiros, dramatizados pelos contrastes da luz na sombra, tenham como contraponto um azul doce, já sem tempo, para doces excessos.


Sansão Cego pelos Filisteus, 1636

CP

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