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5.7.03

Linha do Horizonte 


UM NOME DISTANTE

I

O branco que demora algum tempo
aceita-o
Branca vela de barco
p'lo verde musgo da árvore.

II

A lua brilha. Fácil imagem de uma
vida em suspenso.
Aguadava-me, no cais, com um sorriso
de reconhecimento.
Soubemos, desde sempre, que voltaríamos
depois de tão longa ausência.

Vagabundeámos, mas nunca perdemos
as palavras,
o sentido da nossa vida.
Anos de distância eram agora
pequenas horas do nosso corpo.

III

O destino, eu sei,
manchas ressentinas, traços indistintos.
O rumor
o vento
o esplendor do sol. O próximo tempo.

IV

A noite aproximava-se.
Aguardava a sua hora para avançar sobre todos os brilhos.

V

De todos os presentes só ele parecia
feito para a acção.
Cada um dos seus movimentos possuia
a beleza moral da coragem.

Onde já o vira de outra vez?
Há muito tempo?
No outro extremo do mundo?
Havia nele a imensidade do oceano,
a luminosidade de um longínquo horizonte.

VI

Conhecia a guerra, a fome e
o infortúnio transportara-o a tão
grande distância.
Estivera perto da morte e agora
estava tão perto de mim,
neste jardim onde floresce a claridade da lua.


VII

Nem flores, nem folhas verdes.

Os seus olhares encontram-se,
pareciam tocar-se.

Nem lágrimas ou tempestade.

Porque vieram aqui?
Porque lhes ensinaram o caminho deste lugar?

Indiferentes à noite que desce da montanha.

[João Miguel Fernandes Jorge, Tronos e Dominações, 1985]


paisagem de Caspar David Friedrich

CP

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