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22.6.03

Uma polémica 

Paixão Segundo São Mateus, Johann Sebastian Bach e texto de Picander, direcção de Mcreesh, filosofia e concerto no CCB.
Começo por dizer que tenho a gravação de Harnoncourt de 1970, e a de 2000, esta última faz-se acompanhar do score original de Bach, de 1736 em CDrom. Li também o artigo de Harnoncourt sobre o assunto. Analiso sobretudo o disparate de uma voz por parte de Paul Macreesh, que continua a insistir no engano de Rifkin e a tocar a Paixão Segundo S. Mateus sem coro, com os solistas a fazer as partes atribuídas a este. Aproveito para cascar no Seabra que mostrou ignorar, na crítica de então no Público, que Bach tinha usado alaúde nas versões iniciais da Paixão. Cheguei a algumas conclusões:

O Sr. Seabra do Público é um ignorante, ignora notavelmente que o alaúde foi o instrumento escolhido por Bach em 1727 e 1729 e que existe uma parte de alaúde escrita pelo punho de Bach. Este instrumento foi substituído por Gamba na versão de 1736, também do punho de Bach, existe também uma última versão de 1741, sem partitura mas com partes em que fixou e refinou o texto. Estas últimas versões são as mais usadas. O coral inicial “O Gottes Lämm Unchuldig” que é cantado, geralmente, pelas crianças (soprano ripieno) sobre todo o texto na abertura, aparece escrito a vermelho na partitura e atribuído apenas à mão direita dos dois orgãos, sem letra na partitura autógrafa. Este coral era bem conhecido na época do Bach e por isso mesmo, segundo Harnoncourt, poderia não ser cantado sendo apenas tocado pelas tais mãos direitas dos orgãos, sobretudo nos primeiros tempos de Bach em Leipzig, em que o mesmo Bach tinha imensas dificuldades de meios, com rapazes relapsos do coro e oito músicos da banda que reforçavam os músicos à sua disposição, a partir desta matéria prima Bach foi formando toda uma escola que lhe permitiu melhorar e reforçar cada vez mais os seus textos, as versões das suas obras com o tempo são cada vez mais preenchidas de meios! Assim existem as partes deste coral da versão de 1736 para os meninos, mas não é essencial a utilização deste coral ripieno, pelo menos segundo a versão de 1729! De qualquer modo até é possível que, sobre as partes cantadas do coro a congregação cantasse ou evocasse o coral bem conhecido.

Aqui começa a aldrabice do Mcreesh, o homem usa um duplo coro de quatro vozes apenas, mas usa a versão de 1736, pois aplica viola da gamba, esquece de caminho o coro de sopranos ripienos com o tal coral de abertura e no fecho da primeira partes que a ser omitido teria de ser na versão de 1729. Usa Gamba na ária do coro I mas esquece a Gamba na ária Geduld, do coro II, usando aí o violoncelo, deveria ter usado alaúde se seguisse a versão de 1727. Usa mulheres quando o Bach só usou rapazes e homens, e pretende estar no rigor histórico.
Bach escreve uma carta a pedir quatro cantores por parte ao Conselho de Leipzig e Mcreesh esquece completamente o facto. Depois, em concerto, desafinação, esquecimentos de entradas, fífias no oboé, harmónicos a saltitar do violino, desequilíbrios em toda a obra, mau contínuo, sobretudo nas partes “à batuta” (vem escrito por Bach) em que os violinos acampanham Cristo e em que Mcreesh fica parado. Enfim uma confusão musical e musicológica.
Do ponto de vista musical Mcreesh é mau, como o provou em concerto: o tenor não conseguiu cantar um único si agudo em condições, tendo a partir de certa altura passado a cantá-los na oitava abaixo. A Kosena falhou rotundamente e por três compassos a entrada na ária “Sehet...” Se me dizem que as vozes eram óptimas vou ali e já venho, apenas a York foi excelente e o Cristo, não me recordo do seu nome esteve quase irrepreensível. Mas o cômputo geral foi de tempo perdido e de má interpretação. Em CD disfarça, notam-se as colagens, as mudanças de registo na interpretação.
Se musicalmente é mau do ponto vista da autenticidade histórica é péssimo.


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