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3.6.03

Recebi uma amável missiva de uma pessoa que lida com livros (atenção que este link não funciona em todos os sistemas por causa do caracter "_" que não deve ser usado num URL), remata assim:

"Mas entendo que seja critico, ou seja, trabalha em cima do trabalho dos outros....como uma rémura com um tubarão....deve ser bom."

Claro que não é por ser "bom" que o faço. Mas este comentário suscita reflexão. O que leva um tipo a ser crítico? Porque motivo é o crítico tão odiado pelos criadores? Recordo Vitor Hugo. Uma vez perguntaram-lhe se um mau escritor podia ser um bom crítico. Ele respondeu com uma frase notável: Maus vinhos podem dar excelentes vinagres.

Mas serei eu, e os outros todos, candidato a ser um excelente vinagre?...
A resposta não é simples, mas no meu caso espero que não.

O crítico musical tem de gostar de música. Tem de ouvir música todos os dias da vida. Para mim o verdadeiro crítico de música tem de ser músico, perceber do assunto, tocar um instrumento, saber ler uma partitura, ter conhecimentos vastos de musicologia, de história e de filosofia. Porque a exigência é fundamental. O crítico espera que as suas críticas sirvam para melhorar um pouco o panorama.
A discussão, a polémica, são fontes de conhecimento. Porque ninguém é linear, e existe o hábito de ver os fenómenos da arte como factos lineares. Não são, são não lineares e caóticos. Porque será que eu uns dias ouço Glenn Gould e consigo suportar aquilo e noutros, como hoje, penso que o canadiano é completamente abominável?

Mais, o crítico não pode usar o seu instrumento, como afirmação de poder, deve ser humilde, deve aprender e ensinar. Não. Não se pode usar a crítica para ferir, para massacrar, a crítica é um instrumento de conhecimento, de progresso interior e de ajuda criativa.

Por isso nego a críticos que escrevem sobre tudo, de cinema a televisão, passando por teatro e bailado, e que nada sabem de música, o crédito de uma crítica séria. Esses são os vinagres da crítica, bem pagos por jornais, são os chatos do costume, esperam que se lhes tire o chapéu quando merecem pontapés no traseiro.

Agradeço, a quem mexe com livros, este tema de reflexão.

Crítico




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