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15.6.03



A propósito da poesia de Bernardo Pinto de Almeida, crítico de arte, que conheci em pose de "grandartiste e poeta" na Feira do Livro de Lisboa, cito este poema:


Estava eu nisto
quando
cheguei à idade adulta
àquela plena consciência
de não andar no mundo pelos outros
mas por mim
pelo despontar da primavera
no azul do céu na manhã fresca
pela contemplação dos roseirais
pelo cheiro da urze
pelo cair do dia nas cidades
o seu comércio lento e evasivo
as suas montras docemente incendiadas
e pelo esperar da noite
quando o teu belo corpo
audaz e ansioso
se abre como a rosa
contra o meu.

Quer mais do que isto
um homem
do que saber-se inteiro
sereno agradecido
diante da sua própria morte?

Devo dizer que, como este, já milhares de poemas andaram pelos mesmos caminhos banais, utilizando construções como "ocheirodaurze" (diria que só falta um pouco de rosmaninho, talvez noutro poema...) mas o azul do céu e a Primavera estão presentes - Camarada, não faltámos à chamada do poeta!
A técnica não é grande coisa, umas associações de ideias. Um símbolo de pontuação no final da primeira estrofe, outro no final do poema, Mas porque raio usa pontuação no final das estrofes se não a usa em mais lado nenhum, hipóteses: Liberdade com limites? Procura criar dificuldades de leitura ao leitor? É mais fácil e rápido de escrever o poema?!
Uma interrogação final: o problema narcísico da morte do poeta/autor. Como diria Prado Coelho no gozo: "todos os poetas estão: ou apaixonadíssimos, ou com medo da morte... Pudera!"
Agora a metáfora do "teu belo corpo que se abre como uma rosa", é realmente interessante este tipo de metáforas, mas Pinto de Almeida, eu já vi isto umas quinhentas mil vezes. É uma das metáforas mais batidas da poesia ocidental, árabe e oriental. E o poeta, narcísico como todos os poetas, muito pouco psicótico, que esta é uma poesia com os pés em terra, termina afirmando-se homem inteiro!
O que ganhámos nós? Ficámos a saber que o poeta fez sexo com o objecto do seu desejo (o género é indistinto) e ficou satisfeito, sereno (pudera!) e agradecido.
Está bem, para o poeta que se mostrou antes.
Bonitinho.

Mas recomendo a BPA que se deve internar (palavras dele próprio) em novas poesias, talvez com o esforço continuado e trabalho, muito trabalho deixe de ser apenas alinhavado e bonitinho. De qualquer modo apenas peguei numa poesia, se tivesse tido pachorra para ler mais talvez tivesse outra opinião.
Por estas e por outras é que o meu Blog não devia estar no serviço público, falta-me a pachorra para ser mais cuidadoso como crítico, a amostra inicial foi tão desinteressante para mim que nunca conseguiria engolir o sapo de ir ler mais deste "poeta". Um Blog de serviço público teria de fazer uma investigação mais séria...

Mais um comentário post mortem, que este "poeta" já matei no meu olvido:

Erro de palmatória cometido por este crítico: quando falo de trabalho, muito trabalho, esqueci-me completamente de um aspecto, a vivência, a sensibilidades e o jeitinho natural para a escrita. Esses não se arranjam com trabalho. E o "poeta" sempre pode continuar a arrastar-se por mesas redondas recebendo convites de amigos, apresentando livros e puxando o lustro a quem lho vai puxando a ele. Os amigos continuarão a dizer bem da poesia dele, Eduardo do Prado Coelho incluído, que é assim que funciona o bom Portugal.

"Não basta ser poeta! É preciso que o Eduardo Prado Coelho decida que se é bom poeta, independemente das qualidades."
Curiosamente na Rodésia (mudou de nome?) quem decide quem é poeta chama-se Robert Mugabe!


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