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29.6.03

Mais luz 


Ilusão do real ou evidência da ilusão? Vermeer, bem o sabemos, faz um nada parecer tudo. Faz crer que à totalidade da obra falta apenas o olhar de cada um de nós. Faz corresponder à inteligência visual da sua construção, a cada geometria secretamente elaborada, a cada pincelada laboriosamente calculada, o prazer visual da recepção. E para que seja mais lento e intenso o prazer da visão, da descoberta e de todas as impressões, foca e desfoca, aproxima e afasta, modela com luz, cria sombras e penumbras. Faz ainda sentir-nos intimidados por surpreendermos mulheres contemplativas e absortas. Nos seus afazeres domésticos, entre reposteiros e janelas, com gestos e olhares suspensos, numa carta, num colar de pérolas, numa renda, num gomil, numa balança... Quando abandonou os temas bíblicos e mitológicos por estes interiores domésticos, tão contemplativos quanto laboriosos, Vermeer já sabia que a sua escrita poderosa, a sua capacidade de lidar com a forma, o espaço, a cor e a luz, com todas as matérias picturais até ao ponto de representar todas as "matérias" e de tornar visível a sua essência, teriam este efeito sobre nós. As "vidas quietas", naturezas-mortas e pintura de género, no seu realismo acutilante, relevam do mais puro prazer de pintar. Junte-se aos efeitos bem calculados da verosimilhança, como sucede com Vermeer, a intensidade no sentir. Pela atmosfera tão profundamente intimista, pelos reposteiros que abrem e fecham a visão (elogio a Zeuxis e Parrasio?), pela janela que ilumina, que reflecte a imagem e que centraliza o nosso olhar, tal como o dela, sobre a carta, pela cadeira que afasta, o tapete e os frutos que aproximam, pela cor e pela luz de todas as formas e matérias, esta é uma das minhas pinturas favoritas de Vermeer.


Leitora à janela, c. 1657
Johannes Vermeer (1632-1675)

CP

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