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13.6.03


A escrita e o umbigo

Fala-se que o bloguismo poderá ser um fenómeno que se prende com o umbigo, é um acto narcísiciso, Abrupto diz-nos:

"2. Há dois tipos de "umbiguismo" na blogosfera , e o termo , que escandaliza muitos , tem todo o sentido . Um é o "umbiguismo" do puro diário . A existência de diários mais ou menos íntimos , que são públicos é uma novidade permitida pela rede e potenciada pelos blogs . Tem muitos riscos porque a linha entre o íntimo e o público sendo quebrada , pode ter consequências perversas , mas cumpre um papel .
É a segunda forma de "umbiguismo" que é mais perniciosa : a de só se discutir a comunidade , nalguns casos entendendo-a como a família , o círculo de amigos , o clube mais ou menos privado , ou a seita política ou jornalística . Isso faz implodir e é , a prazo , estéril . " sic

Vou discutir o primeiro ponto: o "diário", não discuto o segundo com o qual concordo plenamente.

Como toda a crítica deve ser fundamentada dou exemplos escolhidos ao acaso. Falemos de diários, começamos por falar então de blogs unipessoais, vejamos o blog 100nada ou o blog Omeupipi, escolhi completamente ao acaso. No 100nada encontramos uma forma de diário puro, meias frases, comentários do dia a dia, geralmente bem escritos, é um "diário da vida numa grande cidade", encontra-se poesia. O autor nunca, ou raramente, se revela directamente, revela-se através das suas imagens, da sua visão de um concreto.
Temos aqui um diário sem umbigo.
Existe comunicação? claro que existe, mas aqui caímos num ciclo sem retorno. A escrita é um acto de comunicação, porque motivo terá Sebastião da Gama escrito os maravilhosos diários que escreveu? Comunicava consigo próprio? Escrevia para ser lido no futuro? Para se melhorar a si próprio em análise futura? Se olharmos para estas três hipóteses vemos uma componente narcísica em todas. Pior, nunca, nem num diário pessoal, todos os pensamentos são colocados. Um diário, blog ou íntimo, acaba sempre por ser "semipúblico" nunca se sabe quando será lido, muitas vezes depois da morte, é também uma âncora no real, que o sonho humano de imortalidade vai deixando. Um livro, em maior escala, é um objecto narcísico, ninguém escreve um livro para não ser lido.
O problema do umbiguismo, em comparação com outras formas de escrita, não se põe. O problema para mim: é a qualidade. Se um texto for bem escrito, terá valido a pena, terá leitores, cedo ou tarde.

Olhemos agora para omeupipi, narcisismo? Claro que sim, como em todos os outros blogs, como em toda a escrita. Aquilo é o diário de um "D. João da Picheleira" uma espécie de farsa montada, imaginada, um espectáculo. Feito com que intuito? Não quero entrar por aí, até porque não leio aquilo com a atenção que uma análise mais cuidada exigiria. Mas é um objecto narcísico em extremo, porque quer chocar por um lado, porque se quer afirmar por outro. Consegue algo difícil, uma corte de admiradores, uns mais irónicos, que afrontam pela perversão da linguagem, outros mais básicos, que gostam mesmo daquela triste afirmação de fixação sexual que por ali reina. Será um objecto literário? Está bem construído, leva a água ao seu moinho, a ordineirice é usada de forma imaginativa, sim, estou em crer que até poderia ser visto como objecto literário.

Vejamos agora as crónicas de Pacheco Pereira em Abrupto, são um diário sem dúvida, tem política, literatura, citações de amigos, poesia e até "ecos da blogosfera". É comprometido e tem ideologia, lendo esse diário ficamos a saber as opiniões do autor, ficamos a conhecer melhor o autor, podemos discordar, mas temos argumentos para analisar, rebater ou corroborar. Será um acto de umbiguismo? Claro que é, visto como acto narcísico que é implicado pela ânsia de comunicar, de estar no mundo que nós todos, seres humanos temos. Somos seres narcísicos, senão caminharíamos para a auto destruição gratuita. Mesmo quando o negamos, a nossa auto estima encarrega-se de nos lembrar esse facto. Curiosamente o próprio suicídio, em muitos casos é um acto narcísico.
Qual o mal deste narcisismo na nossa demanda de formas de comunicação? Penso que nenhum, ao ler o Abrupto ficamos apenas com mais uma reflexão, uma nota que nos recorda que o prazer solitário da escrita, não é tão solitário como isso! E se quem nos ler tiver gosto no que escrevemos, se apreciar, acabou-se o narcisismo, passamos a ser altruístas. Narcisismo/altruismo afinal em que ficamos?
No meu caso confesso, embora tenha um prazer grande na escrita solitária, para mim, embora escreva coisas que guardo sem mostrar, tenho também muito gosto em dar prazer a quem me ouve ou lê.

Apenas o uso da palavra "umbiguismo" me parece excessivo, afinal o problema é tão só este: a qualidade do que se escreve.

O Crítico

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