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14.6.03


Debate sobre poesia na feira do livro de Lisboa
13 de Junho, aniversário de Fernando Pessoa


Da direita para a esquerda (vistos do público), sentadinhos junto de uma mesa redonda de alumínio. O Eduardo do Prado Coelho, Bernardo Pinto de Almeida, o moderador, uma rapariguita de nome Pedreira (não está no programa), o Pedro Mexia, e o Vasco Graça Moura. Todos os homens de fato completo sem gravata. A almôndega filosofante tinha camisa escura, todos os homens tinham casaco escuro excepto o VGM de fato azul bébé, lenço escuro e sapatos muito mal engraxados com peúgas castanhas ou azuis escuras ou sei lá, mas muito mal combinado (obrigado José Manuel Fernandes por me dares esta dimensão da realidade). Assistência composta, Clara Ferreira Alves, organizadora dos eventos, Rui Mário Gonçalves, Inês Pedrosa entre muitos outros. Omeupipi lá estava, como de costume em situações deste tipo.
O moderador tem nome que pode ser consultado no programa. O que disse foi irrelevante, longo e repetitivo. Gosta de se ouvir a si próprio, o que é próprio nestes acontecimentos. Sempre que um interveniente acabava comentava e repetia umas frases do que acabava de ser dito.

O conteúdo do debate foi interessante, discutiu-se a inevitabilidade da palavra na poesia, a poesia em oposição à prosa. Claro que EPC foi brilhante quando empregou a metáfora, aliás não original, da prosa como neurose, (porque severamente dominada pelo referente concreto) e a poesia como psicose (uma alucinação psicótica em que a palavra é o instrumento do sonho, sem grande relação referencial com o concreto).

Vasco Graça Moura disse que não, que não se sente prosador neurótico! Ou leu à letra EPC, ou quis fazer graça fácil de senso comum. Mas mais disse: a poesia e prosa têm diferenças ténues, mas "antes pelo contrário" e "não é bem assim" e "rebéubéubéu", o que até foi interessante de se ouvir com citações de Camões à mistura. Mais disse que a palavra não é inevitável, não existe uma palavra única na poesia em concreto, um poema pode ter variantes, palavras diferentes no mesmo ponto e a poesia ter o mesmo valor. Ele não disse mas eu recordo o soneto de Bocage que termina com o verso:

"Um dia em que se achou mais pachorrento."

E no mesmo soneto existe a variante:

"Um dia em que se achou cagando ao vento."

Creio que neste ponto Vasco Graça Moura tem razão.

O Mexia falou pouco, mas disse algumas coisas com piada, não fosse a impressão de ser um falso modesto quando falou nas poucas centenas de livros que tinha vendido. Falou na sobre-exposição da poesia, que afinal até vendia pouco, mas que se dava muita importância à mesma. A sua reflexão mais interessante foi dizer que não fazia sentido falar na disputa "Linguagem da experiência" versus "Experiência da linguagem", afinal a linguagem é sempre uma representação, tem sempre poder de referência pelas imagens e simbolismos que desperta ao leitor.

Claro que se discutiu se a poesia poderia ser utilizada para uma narrativa, a Mª do Rosário Pedreira assumiu-se como poetiza narrativa. Aproveitou para dizer mal, aqui na qualidade de editora, da nova prosa fácil, em oposição à poesia, diz ela que só a poesia de valor é publicada, e que o leitor de poesia é mais exigente. Tudo misturado com observações que me pareceram muito pouco éticas, descrevendo os textos dos condidatos a publicação que a sua editora recebe, com detalhes e pormenores. Enfim pareceu-me que a senhora licenciada Pedreira, uma vez que se fartou de dizer que tinha andado na faculdade, tinha um enorme complexo de inferioridade que tentava mascarar com ares de superioridade e sobranceria por virtude de ocupar uma posição editorial em que tem o poder de julgar textos que recebe, marcando-os com a possibilidade de serem editados, ou deitando-os para o lixo. A forma como mostrou um profundo desprezo pelos seres inferiores deixou-me triste. É marcante até o exemplo do seu "mestre" de faculdade, que perguntava: "onde está a poesia num casal à beira rio, num Ford Taunus, ela a fazer tricot ele a ler a Bola", encontrei mais poesia neste casal, ao por do sol, do que em todo o discurso da Maria do Rosário Pedreira. Disse que faltava estilo a quem aparecia agora, vindo do nada, e que na sua geração liam muito, e que tinham incorporado muitos elementos estilisticos das gerações precedentes. A menos estruturada das intervenções e a mais longa.

Finalmente a cereja no cimo do bolo, o poeta e crítico de arte, Bernardo Pinto de Almeida disse tudo:

"O navio dos espelhos não navega, cavalga" de Mário Cesariny

E reclamou o direito ao poeta de viver como poeta, contemplando o mundo, vivendo de forma diferente, a poesia são os "momentos do real concentrados" que "extravasam nas palavras". O poeta é "o ser falante habitado pela poesia", vê-se que quem diz isto é poeta. E que, a propósito da psicose, não gostaria de ser internado "senão em novas poesias".


Comentário a 15 de Junho: Levado pela curiosidade que as palavras deste Pinto me provocaram puz-me a ler este Almeida. Descobri, para meu espanto, que o que me surgiu na Feira do Livro é uma máscara do banal, uma pose. Tive pena, estava à espera de boa poesia, pela amostra do indivíduo, pelas palavras. Afinal o único momento poético de Bernardo foi ter cotado Cesariny como genial, já não é mau, mas é muito pouco. Ver post em que comento uma poesia deste "poeta" em máscara blasé de grande artista.



Creio que o debate foi interessante. Esqueceram-se da poesia como filosofia e de Antero, mas não se pode ter tudo. Em Antero a poesia é política, é ideológica e filosófica. Também é sonho. E faltou um pouco do universo onírico neste debate.

Crítico


Acrescento posterior, como comentário crítico e reflexivo: o distúrbio narcísico onde se enquadra? Todos somos neuróticos, psicóticos ou narcísicos. Creio que o narcisismo surge em qualquer escrita, seja na prosa, seja na poesia, logo coexiste, em ambas, uma mistura dos três elementos. O grau de utilização de cada ingrediente leva-nos mais para a prosa, mais para a poesia, mais para o discurso centrado no eu interior ou no outro exterior.



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