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30.5.03

Revisto em 31 de Maio de 2003.

A busca do conteúdo.

Não comento, em geral, blogs. Mas existe texto substantivo de abrupto quando fala da escola de jornalismo do Expresso. Não resisto a um pouco de crítica e de comentário.

Não incluo link propositadamente, detesto a moda do linka-me a mim que eu linko-te a ti, coça-me as costas que eu coço as tuas.

A análise que este blog faz das escolas de jornalismo é brilhante. O molde da escola jornalística do Expresso, a sua matriz inspiradora é a fonte original de Marcelo Rebelo de Sousa. O problema é que esta matriz não é reprodutível. É certo que gerou uma plêiade de micro clones, marcelinhos em miniatura: os jornalistas políticos de trazer por casa. Casa, entenda-se: Portugal. Dizendo melhor, jornalistas-políticos de trazer por Portugal. Porquê jornalistas-políticos? Porque os nossos jornalistas não são meros observadores, são factores-inventores de factos políticos. É certo que a mecânica quântica nos ensimou que o observador destrói, intervém na realidade, mas apenas ao nível microscópico do átomo, do núcleo, Ora os os nossos rapazes dos media, gostam de inventar, intervir e não apenas reportar, observar ao nível macroscópico da política. Seria muito difícil reportar sem intervir, até por reacção. Não se lhes pede, no entanto, que intervenham ao nível da invenção deste fenómeno tão luso: o "facto político". Um incidente, não um referente. Um taticismo, nunca uma estratégia, bem típico de Portugal nestes últimos séculos. Repare-se que a criação de "efeitos" pontuais, de curta duração, é fácil; a intervenção ao nível estratégico é muitíssimo mais complexa, e mais imutável. Mais difícil de analisar, mais difícil de alterar, e os rapazes gostam de "mexer na massa", sentem-se importantes. Por outro lado criam instabilidade, a instabilidade é boa para as tiragens, para as audiências. Estamos face a um "lobby" que actua por interesses comerciais e não por interesses éticos. Pior, esquecendo quaisquer referências éticas.

Sem capacidade de análise, agindo apenas pela gestão óbvia do senso comum. Sem critérios de análise científica. Sem referentes culturais, os jornalistas políticos classificam sem argumentação inteligente, usando apenas a casca do discurso do mestre Marcelo, sem apanharem o âmago da questão, a vivacidade do mestre, a sua tortuosidade, que é difícil de mimetizar, e mesmo a sua cultura. Pode-se reparar que Marcelo é capaz de dizer uma coisa e o seu oposto, com diferença temporal limitada, justificando (com argumentos do senso comum) plenamente as opções, deixando os distraídos completamente convencidos da equidade e justeza das argumentações.

Mas Marcelo é pobre, lê demais, não pode ler a fundo, apresenta-se como culto, viajado, professor, jurisconsulto, dormindo pouco, uma espécie de super homem da cultura, da política, do futebol. Apresenta-se capaz de falar sobre tudo e sempre bem. Nunca diz, ou raramente diz, "desse assunto nada sei", Ouve-se, pelo contrário afirmar, "não sou especialista da área mas...", saindo imediatamente uma elocubração enorme sobre o assunto em que o discursante se afirma não especialista! Mas analisemos o seu discurso, exactamente como abrupto viu. Pensamos que esse discurso em geral é sem conteúdo semântico elaborado, apenas procurando classificar a imagem e a gestão mediática. O comentário é apenas ao "facto" político, como episódio, muitas vezes ficccionado, ou com uma teoria de suporte totalmente imaginada, v.g. as sucessivas datas de ataque dos aliados no Golfo, com as mais variadas suposições, tipo plenilúneo, subida/descida do preço do petróleo, discurso do Greenspan a mexer nas taxas de juro, temperatura conjugada com Lua e Ramadão, ainda não falou dos efeitos astrológicos, mas já esteve mais longe. Errando, em todos os casos, de forma estrondosa. Cito apenas factos de política internacional, para eu próprio não entrar na política de trazer por casa.

Onde estão as ideias? Os grandes conceitos? As visões estratégicas? A argumentação? Nada: o zero. Marcelo é uma máscara que comenta e discorre sobre máscaras, que praticam actos imaginários e interpretados imaginariamente. Aliás seria impossível ser de outra forma, o tempo não é elástico, e se Marcelo é bom professor e jurisconsulto, como lhe sobra tempo para ler análise política, filosofia, teoria? Pelo menos de forma séria. Tocqueville? Deixa-o para o Carrilho (outro ...) e o Carlos Magno (este último descobriu, ou redescobriu, este pensador há poucos meses e nunca mais deixou de o citar...)

Marcelo é brilhante, em todo o caso, mas vazio, de teorias, de relações, de conceitos éticos.
Os micro clones de seguidores, jornalistas de segundo plano, o que fazem? Seguem, é o mais fácil, é cómodo, mas sem pensar. Nota-se que Marcelo ainda pensa qualquer coisa, pois a sua inteligência viva é de análise muito rápida. Os jornalistas políticos do burgo nem isso fazem.
O que nos dão então?
- Classificação, senso comum, mediatismo, melhor dizendo: imediatismo e primarismo.

Crítico

Nota final - Abrupto, dê-nos um doce, um texto seu para nos fazer pensar, uma reflexão sobre o mundo de hoje, e os grandes referentes éticos e teóricos do seu pensamento. O liberalismo, a social democracia, o estado providência, o papel do estado na economia de hoje e as relações de interdependência. Não se coloque na posição confortável de apelar aos objectos em extinção, do quais lhe mando um exemplo: o soneto! Dá trabalho, obriga o criador a pensar, o leitor a ler, e a dizer, e a poesia livre, branca, em simples associação de ideias dá muito menos trabalho.

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