<$BlogRSDUrl$>

23.5.03

A obra de arte como realidade caótica.

Cartesianismo, linearidade, um sonho de qualquer crítico.

Pediram-me uma crítica sobre a última Ariana em Naxos do San Carlos. Que fazer, pensei eu, não podia ser "muito extensa", por favor "não sejas fracturante", "pelo menos, demasiado" mas "tens toda a liberdade", não te esqueças que eles "pagam uns bilhetes", ou que "não é conveniente dizer muito mal" afinal temos de apoiar a cultura e andam por lá uns rapazes e raparigas que nos podem se "úteis no futuro", ou o ainda estafado mas sempre repetido: "ainda te fazem uma espera". Olha são duas da tarde, tens até às 15h30m, vê se te despachas...

Onde fica Hoffmansthall, onde fica Strauss no meio disto tudo? Pergunto eu. Onde assenta o debate entre o mundo clássico e o mundo popular, provavelmente contemporâneo. Onde foi o velho Hugo buscar a inspiração? Onde deixar em breves linhas uma citação do Bourgeois Gentilhomme de Molière.

Cantores reaccionários versus actores "prá-frentex", ou esteriotipos versus flexibilidade criadora? O génio de Strauss conservador, contra Hugo o inovador? A orquestra imensa de Strauss contra a orquestra de câmara proposta pelo Hugo? Qual destes mundos representa Hugo, qual destes mundos, ou planos representa Richard? Porquê a necessidade de identificações, de buscas, procuras de referentes? Os referentes existem mesmo? Ou serão apenas âncoras que nós utilizamos para balizar o inabalizável: o génio intuitivo e criador. Muito pensado mas nunca atingido pelo crítico, porque sendo nós destinatários das obras não estamos dentro do cérebro, da ideia do criador, somos sim recriadores, refazedores, logo as nossas balizas são apenas marcos da nossa própria incapacidade de criação da obra estudada. Falo como crítico e como destinatário, porque todos os destinatários da obra são críticos da mesma, senão seriamos todos nós, espectadores, meros seres acéfalos sem sequer capacidade de gostar, de fruir.

Porquê dualidades e antíteses, seremos afinal tão cartesianos, tão maniqueístas que não conseguimos ver a várias dimensões, que não conseguimos ver estruturas muito pouco lineares, que deixam um campo imenso à nossa interpretação. Círculos e parábolas são apenas referentes limitativos de uma realidade caótica, não acrescentam nada aos segmentos em que numa ponta temos um pólo positivo e noutra o pólo negativo.

Fulano esteve bem, sicrano esteve mal, onde está o meio termo, recuso a definição linear, todos estiveram simultaneamente bem e mal, cada um dentro de si, cada um de nós com uma realidade diferente, com uma imagética afectada pela nosso percurso e pela estrutura mental que nos forma.

Lá escrevi umas linhas, nem falei muito de antíteses, nem falei da não linearidade da obra, comentei que fulano ia bm, sicrano ia mal, a orquestra "antespêlo" contrário, e AH! AZAR! Esqueci-me, esqueci-me de falar nas luzes, que tão bem sublinharam a cena da segunda parte, transformado personagens de carne e osso em seres diáfanos e mitológicos, deambulando em universos paralelos, e já cá faltava dizer, num mundo caótico absolutamente não linear.

Que crítica tão má que acabou por sair. Uma porcaria, mas a rapaziada gostou, é o que importa, sinto-me uma prostituta... Ao menos ainda não é desta que tenho uma espera!

Crítico

Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?